sexta-feira, 2 de março de 2018


A moreninha
Joaquim de Manuel de Macedo






   Considerado o primeiro romance romântico brasileiro propriamente dito, A Moreninha(1844), obra-prima de Joaquim Manuel de Macedo, segue a tendência do romance-folhetim, alcançando grande repercussão por apresentar os quesitos necessários para satisfazer o gosto do leitor da época: o namoro difícil ou impossível, a comicidade, a dúvida entre o desejo e o dever, a revelação surpreendente de uma identidade, as brincadeiras de estudantes e uma linguagem mais inclinada para o tom coloquial.


       O romance é narrado em terceira pessoa, com narrador onisciente. O tempo transcorre na ordem cronológica, apenas uma volta ao passado, nos capítulos sete e oito, quando Augusto conta à D. Ana, avó de seu amigo Filipe, o episódio de seu juramento amoroso. A história se passa e dois lugares: na cidade do Rio de Janeiro, representando a vida urbana e social, e na ilha onde mora D. Ana, simbolizando o paraíso de amor. O estilo do texto é marcado pelo ritmo ágil, com a presença freqüente de diálogos entre os personagens, o que nos dá a impressão de que a história está acontecendo no ato da leitura.
     O enredo de “A Moreninha” inicia-se com a ida de um grupo de amigos estudantes – Augusto, Fabrício e Leopoldo – à convite de Filipe, à casa de sua avó – D. Ana – residente numa ilha próxima ao Rio de Janeiro, onde passarão o dia de Sant’Ana e o fim de semana. Filipe aposta que os amigos irão se interessar por suas primas – Joaninha, Quinquina e suas amigas, Gabriela e Clementina - ou por Carolina, sua irmã. Namorador inconstante, Augusto é desafiado por Filipe e seus amigos que lhe propõem uma aposta: caso ele se apaixone por uma das moças, escreverá a história de sua derrota; se não se apaixonar, Filipe é quem deverá escrever sobre a vitória triunfal de seu amigo inconstante.
     Ao chegar à ilha, Augusto conhece Carolina, por quem fica encantado, enquanto Fabrício o provoca, afirmando ser ele incapaz de amar seriamente. À noite, todos da casa resolvem caminhar pela ilha. Após andar brevemente com Carolina, Augusto junta-se à D. Ana, que o leva a uma gruta próxima, onde havia uma lendária fonte. Ele confidencia-lhe que, há sete anos, quando adolescente conhecera uma jovem na praia: os dois haviam ajudado um pobre velho que, agradecido, profetizou o casamento dos dois no futuro. Num gesto simbólico, o idoso casara-os, fazendo com que trocassem presentes: ele deu-lha um camafeu e ela, uma esmeralda. Trocara juras de amor eterno e de um casamento verdadeiro no futuro. Carolina, porém, a tudo escutava escondida.
    Em troca da confidência, a avó de Filipe conta-lhe a história de uma índia que se apaixonara por um índio guerreiro, mas não fora correspondida. De tanto chorar, suas lágrimas deram origem àquela fonte. Ao beber dela, o guerreiro se apaixona pela índia e os dois viveram juntos para sempre.
     No dia da festa de Sant’Ana, Augusto, como namorador que é, declara-se para as quatro moças da casa. Na manhã seguinte, recebe um convite anônimo para um encontro na gruta. Lá ele encontra as quatro moças, bebe da fonte, e passa adivinhar os segredos delas, fazendo parecer que era o poder da fonte. No entanto, ele não faz nada além de contar as peripécias que havia bisbilhotado da conversa das moças. Neste contexto aparece Carolina, que repete o mesmo gesto, passando a contar as verdades íntimas de Augusto, que ela também havia escutado no passeio à noite, na véspera do dia de Sant’Ana. Mas vai embora antes mesmo de Augusto tivesse tempo de declarar que era ela a quem amava.
     De volta à cidade, não consegue esquecê-la. Passam a se encontrar todos os domingos. Ele chega até a confessar seu amor, mas ela se contém. Como vinha faltando às aulas da faculdade, o pai proibiu-lhe de ir à ilha. No entanto, ele cai doente por vários dias. O pai resolve então atender a vontade de Augusto e ambos combinar de irem juntos, no domingo próximo, à casa de D. Ana.
     O amor impossível e a mulher idealizada são freqüentes na prosa romântica. Para resolver o impasse amoroso, costuma haver duas saídas: o final feliz ou o trágico. Em “A Moreninha”, o impedimento é superado quando, por coincidência, os personagens se conhecem, percebendo serem elas as mesmas personagens de sete anos antes. O resultado é o final feliz.
      Assim, o final do romance é considerado perfeitamente de acordo com o ideal amoroso romântico e as normas sociais, em virtude de não ter havido adultério ou traição em relação à “primeira esposa”. Resta apenas a Augusto pagar a aposta: que, considerando-se paga, temos o romance “A Moreninha”.

PERSONAGENS

Filipe: estudante de medicina, amigo de Augusto. Faz o convite aos colegas para passarem o feriado na casa de sua avó.
Leopoldo: o mais animado dos amigos de Augusto, também estudante de medicina.
Fabrício: é prático e um tanto mesquinho quando se trata de relacionamentos. Pede ajuda a Augusto para livrar-se de Joaquina.
Augusto: é volúvel e inconstante nos relacionamentos amorosos. Apaixona-se facilmente, mas dura pouco, por isso afirma nunca ter amado. Apesar da inconstância, é romântico. Pois não engana as moças, apenas é volúvel.
Joana: prima de Filipe. Tem dezessete anos, cabelos e olhos negros, é pálida.
Joaquina: prima de Filipe. Tem dezesseis anos, é loura de olhos azuis e tem faces cor-de-rosa.
Ana: avó de Filipe. Dona da casa na ilha, senhora amável de sessenta anos que nutre um carinho especial pela neta (a Moreninha) que criou após ter ficado órfã.
Moreninha: irmã de Filipe. Menina de quatorze anos, travessa, engraçada e impertinente.
D. Violante: uma senhora amiga de D. Ana. Era inconveniente e chateou Augusto com lamentações e assuntos de doenças.


Senhora
José de Alencar

     A obra Senhora, de José de Alencar é dividida em quatro partes. A primeira delas, nomeada de “O preço do casamento”, começa descrevendo uma jovem moça chamada Aurélia, rica e frequentadora de bailes da alta sociedade. Aurélia, sendo órfã e recebedora de uma grande fortuna, estava sempre acompanhada de sua parenta D. Firmina e acreditava que todos só se interessavam por ela por causa de sua beleza e do seu dinheiro. Em um baile de costume, Aurélia começou a se questionar sobre sua educação e seu destino. Escreveu uma carta ao Sr. Lemos dando-lhe a missão de arrumar seu casamento com o atual noivo de Adelaide Amaral, o Fernando Seixas. Seixas era pertencente a uma família de situação pouco favorável e pretendia arrumar um casamento com uma moça rica para oferecer melhores condições para sua mãe e suas irmãs, e também para seus luxos. Lemos faz a proposta de casamento a Seixas, que mesmo sem conhecer a noiva, recebe um adiantamento do alto dote e aceita o compromisso. Quando foi apresentado à Aurélia, Seixas sente uma profunda humilhação, pois em tempos passados tinha rompido um noivado com ela para ficar noivo de Adelaide, que era mais rica. Na noite de núpcias, Aurélia chama seu então marido de homem vendido.
      Na segunda parte, chamada “Quitação”, é contada a história de Aurélia. D. Emília era sua mãe e Pedro Camargo, seu pai. Pedro era filho bastardo de um rico fazendeiro e casou-se com Emília sem conhecimento de seu pai. Anos depois, acaba morrendo e seu pai não conhece sua neta. D. Emília fica em má situação para criar sua filha. Nesse momento, Seixas se elege como pretendente de Aurélia e assume o compromisso de se casar com ela. Porém, se arrepende por ter se apaixonado por uma moça pobre e órfã e assume compromisso com Adelaide, moça rica na sociedade. Perto de falecer, o avô de Aurélia a procura e deixa para ela toda sua fortuna. Após a morte de sua mãe, Aurélia tem como tutor Sr. Lemos, seu tio, e como acompanhante, D. Firmina.
    A terceira parte tem como título “Posse” e descreve a rotina de Aurélia e Fernando enquanto casal. Eles vivem uma vida de aparência; desfilam de mãos dadas, trocam carinhos e gentilezas diante de bailes ou de amigos. Mas quando estão sozinhos, trocam palavras ferinas e acusações. Fernando se vê como um escravo de Aurélia, tendo ela como sua dona e a obedece em todos os seus desejos.
    Na quarta e última parte, “Resgate”, temos os principais acontecimentos da trama. Os desejos não realizados de Aurélia e Fernando são passados pelo autor com muito erotismo. Porém, por orgulho, Fernando e Aurélia não se deixam envolver. Podemos notar nessa parte a visível transformação de Fernando que passa a recusar o luxo que tanto já desejara. Fernando passa então a trabalhar dedicadamente e faz um negócio importante, em que arrecada um valor e devolve para Aurélia todo o dinheiro do dote. Ele então pede o divórcio. Comprovada a mudança de Fernando, Aurélia lhe mostra o seu testamento escrito no dia do casamento, onde é deixada para Fernando toda sua fortuna e é declarado o seu amor por ele. O casamento então se consuma e os dois se tornam um casal de amantes.

PERSONAGENS

Aurélia Camargo: Jovem rica de 18 anos órfã, chama atenção de todos pela sua beleza e excentricidade. Muitos moços da sociedade a desejam como esposa, porém, ela pede a seu tio que faça um acordo com Fernando Seixas e casa-se com ele. Aurélia demonstra inteligência e planejamento de suas ações, para que tudo saia conforme seus planos.
Fernando Seixas: Jovem de 18 anos que, apesar de sua família viver de maneira muito simples, tinha uma pose e um lugar de respeito na sociedade. Interesseiro, procura casamento com uma moça rica para melhorar sua situação financeira. É servidor público. Só após o casamento com Aurélia é que começa a ocorrer uma transformação em sua personalidade.
D. Emília: mãe de Aurélia, casa-se com Pedro por amor e deixa sua família para viver esse amor.
Lemos: Irmão mais velho de D. Emília que só aparece após saber que sua sobrinha herdou uma valiosa herança. A pedido de Aurélia, arruma seu casamento com Fernando.
Pedro Camargo: filho bastardo de Lourenço Camargo, casa-se escondido de seu pai com D. Emília e morre, deixando Aurélia órfã.
D. Firmina: mora com Aurélia e a faz companhia.
Adelaide: Ex-noiva de Fernando, é apaixonada por Torquato e por ele ser pobre, só consegue se casar com a ajuda de Aurélia.
Torquarto Ribeiro: moço pobre e apaixonado por Adelaide, foi muito amigo de Aurélia quando ela era pobre.
Eduardo Abreu: Apaixonado por Aurélia, paga as despesas do sepultamento de D. Emília, mesmo estando viajando.


Lucíola
José de Alencar

      O livro Lucíola, de José de Alencar, é narrado através de Paulo, personagem que se torna narrador para contar à Sr.ª G.M. o romance que viveu com uma cortesã chamada Lúcia. Em 1855, Paulo chega ao Rio de Janeiro e vê pela primeira vez Lúcia. Sem conhecer sua verdadeira vida, apaixona-se à primeira vista, pois enxerga nela uma encantadora menina. Essa impressão desfaz-se na Festa da Glória, onde Sá, representante dos valores e preconceitos da sociedade, a apresenta como uma mulher bonita e não como uma senhora. A partir de então, Paulo começa a visitar Lúcia em sua casa.
      Na segunda visita, Paulo deixa de lado o tratamento cortês que até então fizera a Lúcia, agarra-a e acontece o primeiro contato físico. No dia seguinte, há uma festa na casa de Sá onde, além de Paulo e Lúcia, são convidados também homens boêmios, como Sr. Cunha, Rochinha, Sr. Couto e outras três prostitutas, entre elas Nina. Nessa festa, a cortesã exibe-se nua diante de todos. Paulo num primeiro momento teve uma repulsão por toda aquela cena. Porém, mostra-se piedoso e compreensivo e os dois tem uma noite na mata. Esse é o ponto que marca o início da transformação de Lúcia.
      Para Lúcia, Paulo é o caminho para chegar à salvação. Na tentativa de se afastar da sociedade e deixar definitivamente a vida de cortesã para trás, muda-se para uma casa mais simples no interior junto com sua irmã mais nova, Ana. Nesse momento, não existe mais o amor carnal entre Paulo e Lúcia. Há um amor espiritual – Lúcia chega até a fingir que estava doente para não mais haver contato. É nesse momento que conta o verdadeiro motivo que a levou à vida de cortesã – seu primeiro cliente foi Couto, pois sua família estava com febre amarela e sem recursos financeiros para o tratamento. Revela também que seu verdadeiro nome é Maria da Glória. Lúcia era uma antiga amiga dela que morreu e que tomou emprestado seu nome; sua família achava que estava morta.
      A redenção de Lúcia culmina com a descoberta de sua gravidez e não aceitação dela. Mesmo com o melhor parteiro afirmando que a criança em seu ventre estaria viva, Lúcia acredita que seu corpo é sujo e morto, e por isso não é capaz de gerar um filho. Morre, grávida. Paulo, atendendo a um pedido seu, cuida de Ana até que ela se case.

PERSONAGENS

Lúcia: cortesã rica que é conhecida por todos como bela e excêntrica. Maria da Glória é seu nome de batismo. Ao decorrer do livro, busca seu autoperdão através do amor que tem com Paulo. Apesar disso, não consegue o perdão diante da sociedade do seu passado de cortesã. Morre no final, grávida.
Paulo: confuso entre o sentimento por Lúcia e os preconceitos que há na sociedade. Ao longo do livro também sofre uma transformação; passa de um homem boêmio a um homem de negócios. Escreve uma carta à senhora G.M. contando sua história com Lúcia.
Sá: amigo de infância de Paulo e ex-amante de Lúcia, ele quem apresenta os dois. Milionário e solteiro, é o típico homem burguês. Dá festas em sua casa e representa o preconceito da sociedade burguesa diante da impossibilidade de haver perdão aos atos de Lúcia.
Cunha: amigo de Paulo e ex-amante de Lúcia. Ela o deixou no dia em que viu sua mulher sozinha, triste.
Couto: foi o primeiro cliente de Lúcia. Responsável por oferecer dinheiro a ela, em troca de favores sexuais, quando Lúcia tinha apenas 14 anos.
Rochinha: na roda de amigos boêmios, é o mais novo, com 17 anos, e o mais inexperiente. Porém, tem uma vida irrigada por bebidas alcoólicas.
Laura: uma das prostitutas que participaram da festa na casa de Sá.
Nina: uma prostituta que se interessou por Paulo, com quem chegou até a marcar um encontro, que não acontece.
Jesuína: Quando Lúcia foi expulsa de casa por seus pais, foi morar com Jesuína. Mais tarde, ela aparece como suposta enfermeira na casa de Lúcia.
Ana: Com 12 anos e irmã mais nova de Lúcia, vai morar com ela no interior. Possui traços muitos semelhantes aos de Lúcia. Quando Lúcia falece, fica sob responsabilidade de Paulo, e no final do livro casa-se.


Iracema
José de Alencar

      O romance possui como casal protagonista Iracema e Martim. O primeiro encontro dos dois se dá quando Iracema está repousando em sua sesta quando é assustada por um guerreiro estranho. Assustada, ela lança uma flecha que atinge o guerreiro. Ele não tem nenhuma reação ao ataque de Iracema e, ao ver que ele não possui nenhum tipo de má intenção, parte para acudi-lo. Esse guerreiro chama-se Martim. Eles vão juntos até a tribo de Iracema, chamada de tabajara. Martim é recebido pelo Pajé e, como de costume, belas mulheres são levadas até ele por Iracema. Ele recusa e decide ir embora da tribo.               Entretanto, Iracema vai atrás dele, pedindo para ele voltar. Martim aceita. Começa nesse momento uma troca de amor mútuo. À noite, passeiam pelo bosque e ficam muito próximos. Um guerreiro tabajara avista a proximidade dos dois. Ele tenta ferir Iracema e acaba ferindo Martim.
      Voltando para a cabana, Martim avisa que irá partir e de presente leva consigo uma rede dada por Iracema. Antes da partida, Iracema dá um beijo em Martim. Porém, ela sabe que não pode se envolver com ele, senão morrerá. Caubi acompanha Martim. Entretanto, Martim descobre que inimigos de uma outra tribo estão atrás dele. Seu sentimento fica dividido entre a loira dos castos afetos, que deixou em sua tribo, e virgem morena dos ardentes amores. Acontece, então, a primeira noite dos dois.
Martim precisa partir. Iracema então leva o amado até o encontro do seu amigo Poti. Ao chegar ao limite, Iracema não quer deixar Martim e continua a caminhar com ele. Martim, apaixonado por Iracema e também querendo ficar junto dela, decide fazer uma cabana próxima a uma aldeia amiga para morarem; eles e o Poti. Os dois vivem felizes em sua cabana. Até um dia que Iracema descobre que está grávida. Martim precisa ir defender sua tribo junto com o Poti. O guerreiro parte sem se despedir de sua amada. Após o retorno, Martim sente falta de sua terra e fica com o pensamento distante de Iracema. Iracema, grávida, sente a falta de seu esposo. Quando o bebê nasce, vai procurar Martim, descobre que ele foi novamente para a guerra, e volta para a cabana. Iracema recebe a visita de seu irmão Caubi, que fica feliz em conhecer seu sobrinho. Porém, de tanta tristeza e saudade que sente, Iracema não tem mais leite para amamentar seu filho. Martim então chega e ela lhe entrega seu filho, chamado de Moacir, e ,em seguida, vem a falecer.


PERSONAGENS

Martim: representa a cultura colonizadora. Herói, participa de várias lutas em defesa do seu povo. Fica dividido entre a sua cultura e a de Iracema.Iracema: caracterizada no livro com a famosa frase “índia dos lábios de mel”, é admirada pela sua beleza. Carrega consigo a castidade, já que é sua obrigação da cultura diante dos deuses. Heroína rápida, como uma flecha. Após sua união com Martim, torna-se submissa a ele.
Araquém: pai de Iracema. Pajé, recebe Martim em sua cabana e o protege.Poti: amigo fiel de Martim, está sempre com ele nas lutas.
Caubi: irmão de Iracema.
Moacir: filho de Iracema e Martim.




O guarani
José de Alencar

        Em uma fazenda no interior do Rio de Janeiro, moram D. Antônio de Mariz e sua família, formada pela esposa D. Lauriana, o filho D. Diogo e a filha Cecília. A casa abriga ainda a mestiça Isabel (na verdade, filha bastarda de D. Antônio), apaixonada pelo moço Álvaro, que, no entanto, só tinha olhos para Cecília. O índio Peri, que salvou certa vez Cecília de ser atingida por uma pedra, permaneceu no lugar a pedido da moça, morando em uma cabana. Peri passa a se dedicar inteiramente à satisfação de todas as vontades de Cecília, a quem chama simplesmente de Ceci.
      Acidentalmente, D. Diogo mata uma índia aimoré. Como vingança, a família da moça tenta matar Ceci, mas Peri intercepta a ação. A partir desse momento, a possibilidade de ataque da tribo é cada vez maior. E este não é o único perigo a rondar a casa de D. Antônio. Um dos empregados, Loredano, está ali com o objetivo de se apoderar de uma mina de prata que fica abaixo da casa. Pretendia incendiá-la e ainda raptar Ceci. Quando ele e seus capangas combinam seu plano de ataque, são ouvidos por Peri.
Contra si, o índio tem o ódio de D. Lauriana, que considera sua presença ali uma ameaça a todos. Consegue convencer o esposo a expulsá-lo, mas quando Peri relata a iminência do ataque aimoré, como vingança pela morte da índia, D. Lauriana permite que ele permaneça na casa.
      O incêndio planejado por Loredano é evitado por Peri e a traição é finalmente descoberta. D. Antônio ordena que os traidores se entreguem, mas Loredano organiza um levante. Os empregados fiéis a D. Antônio preparam-se para proteger a casa. Ao mesmo tempo, acontece o ataque indígena. Assim, a casa de Mariz sofre ameaças externas e internas.
Álvaro aceita o amor de Isabel e passa a corresponder a ele. Mas sua preocupação se volta principalmente para o confronto com os inimigos. Enquanto isso, Peri concebe um plano terrível para derrotar os aimorés: coloca veneno na água que será consumida pelos bandidos que tentam ocupar a casa; além disso, bebe do mesmo veneno. Em seguida, avança sobre os aimorés e luta bravamente, para mostrar que merece ser submetido ao ritual da antropofagia, reservado apenas aos valentes. Quando comessem sua carne tomada pelo veneno, morreriam.
Cecília descobre o plano e pede a Álvaro que o salve. O moço chega no exato momento do sacrifício e liberta Peri, afirmando que Cecília precisa dele vivo, para salvá-la. A moça pede ao índio que viva e Peri obedece, preparando para si um antídoto com ervas. Muitos dos traidores morrem envenenados. Loredano é preso e submetido à morte na fogueira.
Álvaro sai para apanhar mantimentos, mas acaba sendo morto na empreitada. Seu corpo é entregue a Isabel que, entrando com ele em um cômodo hermeticamente fechado, espalha ervas aromáticas no local e morre abraçada ao amado.
Como última tentativa para salvar a filha, D. Antônio determina a Peri que fuja com ela.         Assim que o índio cumpre a tarefa, o proprietário explode a casa, matando os inimigos que o atacam. Cecília se desespera assistindo à cena.
 Uma tempestade atinge Peri e Cecília na canoa que ocupam. Em um verdadeiro dilúvio, Peri e Ceci somem no horizonte.

PERSONAGENS

Peri: herói da história, é um índio corajoso e valente.
Ceci (Cecília): filha do nobre D. Antônio Mariz, é uma moça linda, loira e de olhos azuis. Meiga e suave, é a perfeita heroína do Romantismo.
D. Antônio Mariz: nobre português que fixa-se no Rio de Janeiro.
Isabel: filha bastarda de D. Antônio com uma índia, é apresentada oficialmente como sobrinha do nobre. É morena, sensual e de sorriso provocante.
Dona Lauriana: esposa de D. Antônio Mariz. É uma senhora paulista egoísta e orgulhosa.D. Diogo Mariz: filho de D. Antônio Mariz. É um jovem que passa seu tempo em meio a aventuras e caçadas.
Loredano: ex-frei Ângelo di Lucca, é um italiano ganancioso e traidor de sua fé.Álvaro: capataz de D. Antônio Mariz, é apaixonado por Ceci, mas acaba se envolvendo com Isabel.


Inocência
Viscconde de Taunay

      O livro Inocência (1872) de Visconde de Taunay é um romance construído a partir de impressões e lembranças da realidade natural e sócio-cultural do sertão mato-grossense. Além disso, analisa os valores comportamentais do sertanejo, fazendo com que esta obra, mesmo se tratando de uma história sentimental, apresente um “toque” naturalista, um realismo descritivo e um tom documental, fruto da experiência de Taunay como redator oficial do Diário do Exército.
     O romance conta a história de amor impossível envolvendo Inocência, filha de Pereira, um mineiro rude, pequeno proprietário da região e Cirino, um aprendiz de farmacêutico que se autodenomina médico. O relacionamento dos dois é inviável porque Inocência é prometida a Manecão Doca, um rústico vaqueiro das redondezas e também porque o pai vive a vigiar a filha, para garantir-lhe a integridade até o casamento.
São poucos os personagens que aparecem nesta história. De um lado, a casa de Pereira, onde encontramos: ele, a filha, o anão (espécie de guardião de Inocência), o noivo “ausente”, um filho – apenas mencionado na história e mais dois personagens: Chiquinho, irmão de Pereira que se corresponde por carta com a família e Antônio Cesário, padrinho de Inocência.
Pereira é o centro da família de tipo patriarcal rural, possuidora de certa posse, personificando tipicamente, por assim dizer, os valores do homem rústico em suas relações com a família e os moradores da redondeza. O narrador chama-lhe “legítimo sertanejo, explorador dos desertos”. Homem nômade, instalou-se num retiro “perdido” no cerrado do sul do Mato Grosso.
     A situação da mulher, no entanto, é bem adversa. A única educação que Inocência recebera foi com relação às tarefas domiciliares, “treinada” à obediência passiva em relação ao pai e depois ao marido escolhido por ele.
      O nome Inocência revela traços da personalidade da moça: delicada beleza, aos olhos do apaixonado Cirino e do naturalista Meyer, encantado com todas as belezas naturais; natural inocência frente ao mundo civilizado, que vagamente imaginava em sua mente; inocência diante do amor, despertado por Cirino, com ousadas e desatinadas ardências, que em nada aparenta ser inocente.
Negociado o casamento, Manecão passa a ser admitido na intimidade da família, assumindo aos poucos os “encargos” de chefe familiar. É aí que aparecem Cirino e Meyer, gerando o conflito.
     Cirino, auto-intitulado médico, instruiu-se no respeitado Colégio Caraça de Ouro Preto. Prático em farmácia, possuía um famoso Dicionário de Medicina Popular, um Chernoviz, referência ao autor do compêndio, espécie de “livro de cabeceira” para orientá-lo no tratamento das doenças populares do sertão.
Apesar de sua instrução, que o liga ao mundo urbano, suas origens e sua profissão mantêm-no ao mundo rural. Ele conhece e respeita os valores desse universo, embora discorde da postura de Pereira com relação à mulher.
     Um componente que orienta a narrativa é o acaso. Foi por acaso que Pereira conhecera Cirino, na estrada, a caminho da vila de Sant’ana do Parnaíba, que por coincidência menciona a doença da filha e Cirino se prontifica a curá-la. Sem essas circunstâncias, não seria possível introduzi-lo na família. Nasce, a partir do encontro entre “médico e paciente”, a paixão mútua, impedida pelo comprometimento com Manecão.
    Meyer também contribui para o desequilíbrio familiar por uma única razão: ele desconhece as rígidas normas de comportamento familiar do sertão, pois é um naturalista alemão, um homem urbano. Ele é recebido por Pereira, de posse de uma carta de seu irmão mais velho, recomendando-lhe que o recebesse como o próprio irmão. O conflito começa quando Meyer, ingenuamente, passa a elogiar a beleza de Inocência, em termos não adequados ao ambiente rústico do sertão. Essa diferença entre os valores europeus e os do meio rural brasileiro é decisiva para que Pereira sentisse ameaçada a integridade moral de Inocência, passando a vigiá-lo constantemente, abrindo caminho para o amor crescente de Cirino e Inocência.
     A resistência do casal se dá dentro dos limites e respeitando os valores desse ambiente onde vivem, pois estão em cheque a autoridade paterna e os direitos do noivo. Esses valores ainda resistem à nova forma de encarar o casamento, presente nos meios urbanos.
      O desfecho do romance se encaminha para a eliminação do casal amoroso e da desarmonia gerada por ele. Inocência morre, mas é imortalizada, renascida, como nome de borboleta – Papillio Innocentia – pelo naturalista Meyer, libertando-se do sertão e integrada para o mundo da ciência.



PERSONAGENS

Martinho dos Santos Pereira (Pereira) – Homem de mais ou menos 45 anos, gordo, bem disposto, cabelos brancos, rosto expressivo e franco. Pessoa honesta, hospitaleiro, severo e não trocava a sua palavra nem pela vida.
Inocência – Cabelos longos e pretos, nariz fino, olhos matadores, beleza deslumbrante e incomparável, faces mimosas, cílios sedosos, boca pequena e queixo admiravelmente torneado. Enfim, uma jovem de beleza deslumbrante e incomparável.Simples, humilde, meiga, carinhosa, indefesa e eternamente apaixonada.
Tico – O anão guardião de Inocência. Mudo, raquítico, esperto e fez por um momento, o papel de fofoqueiro.
Maria Conga – Escrava de Pereira que cuidava dos afazeres domésticos. Escura, idosa e malvestida. Usava na cabeça um pano branco de algodão.
Major Martinho de Melo Taques – Homem que merecia influência na vila de Santana do Parnaíba: Juiz de paz e servia de juiz municipal. Participou da Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul. Era comerciante e gostava de contar casos, ou seja, "prosear".
Manecão – alto, forte, pançudo e usava bigode. Enfim, vaqueiro bruto do sertão. Pessoa fria que matava, se fosse preciso, em defesa de sua honra.
Antônio Cesário – Padrinho de Inocência. Homem respeitado, de palavra, honesto e justo. Fazendeiro do sertão.
Guilherme Tembel Meyer – alto, rosto redondo, juvenil, olhos claros, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos muito louros. Pessoa de boa ídolo, esperto em sua função e simples ao pronunciar as sua palavras. Admirador da natureza e da beleza de Inocência.
José Pinho (Juque) – Ajudante de Meyer. Era muito intrometido em conversas alheias. Pessoa boa e de confiança de seu patrão.
Cirino Ferreira Campos – Tinha mais ou menos 25 anos, presença agradável, olhos negros e bem rasgados, barbas e cabelos cortados quase à escovinha. Era tão inteligente quanto decidido. "Doutor" Cirino era caridoso, bom doava a própria vida em defesa do amor.



A Escrava Isaura
Bernardo Guimarães


       A história do livro A Escrava Isaura se passa inicialmente em uma fazenda, em Campos dos Goytacazes (RJ). Isaura é uma escrava branca, muito bonita e bem educada, que foi criada como filha na família em que serve. Durante muito tempo, foi protegida da matriarca, mas após a morte desta, Isaura tornou-se propriedade de Leôncio, um jovem recém-casado com Malvina. Além de Leôncio, a beleza da jovem escrava desperta paixão em vários personagens, como o jardineiro Belchior, o feitor da fazenda e o irmão de Malvina.
         Isaura se recusa a ceder às tentativas de Leôncio, que, para forçá-la, a manda para a senzala trabalhar com as outras escravas. A escrava suporta o seu destino e não cede a Leôncio, afirmando que ele não era proprietário de seu coração.
       O pai de Isaura, um homem livre chamado Miguel, reúne a quantia pedida pelo pai de Leôncio para libertá-lo, mas o jovem sem caráter descumpre a promessa do pai. Inconformada, a mulher de Leôncio, Malvina, volta para a casa de seus pais, deixando o caminho livre para que o jovem atormentasse ainda mais Isaura.
      Miguel, o pai de Isaura, consegue tirar a filha da fazenda e foge com ela para Recife (PE). Naquela cidade, Isaura usa o nome de Elvira e vive em uma pequena casa com o seu pai.
      Em Recife, Isaura conhece Álvaro, por quem se apaixona e é correspondida. Eles vão juntos a um baile e, na ocasião, ela é reconhecida e desmascarada. Álvaro fica surpreso, mas defende a amada e resolve impedir que Leôncio a leve de volta.
Leôncio leva Isaura de volta à fazenda, mas Álvaro descobre a falência do jovem sem caráter e compra a dívida dos seus credores, tornando-se proprietário de todos os seus bens, incluindo os seus escravos.
       Ao se ver derrotado e na miséria, Leôncio suicida-se e a história tem um desfecho feliz.

PERSONAGENS

Isaura: escrava de pele branca, é filha de um português com uma escrava negra. Foi criada como filha pela família que a possuía, porém, com a morte da matriarca que era sua protetora fica a mercê das crueldades de seu filho, Leôncio.
Leôncio: com a morte dos pais se torna o dono de Isaura. É casado, porém apaixonado pela escrava. Homem sem escrúpulos fará todo o possível para possuí-la
Álvaro: homem rico, se apaixona por Isaura e fica extremamente chocado com a maneira como ela é tratada. Faz todo o possível para libertá-la e pretende se casar com ela, mesmo ciente do escândalo que isso representa.
Miguel: Pai de Isaura, homem simples e trabalhador.
Belchior: jardineiro da casa, também é apaixonado por Isaura. Homem deformado,pretende se casar com a escrava.
Malvina: Esposa de Leôncio, simpatizava com Isaura até que percebeu as reais intenções de seu marido em relação à moça.
Rosa: escrava bonita, porém invejosa da atenção que todos dão a Isaura.



O Seminarista
Bernardo Guimarães

       O Seminarista é obra do escritor mineiro Bernardo Guimarães, lançada no ano de 1872. Bernardo Guimarães não era apenas um excelente escritor, mas era também um homem antenado, que acompanhava fortemente os assuntos que rodeavam sua cidade e seu país. Assim, quando houve a forte campanha jornalística no Rio de Janeiro contra o episcopado – situação que ficou marcada na história do Brasil como “Questão Religiosa” – Guimarães havia compreendido que o assunto estava em alta, e que seria interessante abordá-lo. O romance lhe rendeu grande popularidade, foi bem aceito pela crítica e se tornou um clássico da Literatura Brasileira.
No interior de Minas Gerais, duas crianças de famílias diferentes eram criadas juntas. Tratava-se de Eugênio, filho de um casal de fazendeiros, e de Margarida, filha de uma funcionária da fazenda dos pais de Eugênio. Os dois passaram a infância juntos, e viveram uma bela amizade, cheia de companheirismo e cumplicidade.
       Um acompanhou a evolução do outro, não apenas como pessoa, mas como homem e mulher. Conforme foram crescendo, começaram a reparar um no outro com olhos diferentes, não mais de amigos, mas de pessoas que se amavam. Apaixonados, não conseguiam esconder o quanto ansiavam estar juntos, e seus pais rapidamente perceberam o que estava acontecendo.
       Com medo de que o rapaz, herdeiro da fazenda e dos bens da família, se envolvesse com a moça de classe inferior, seus pais decidiram lhe enviar para o seminário e obrigá-lo a servir a vocação cristã. Assim foi feito, mas mesmo longe Eugênio foi incapaz de esquecer Margarida, e vice-versa.
     Os anos se passaram e quando já estava mais maduro, Eugênio decidiu que iria embora do seminário para viver sua vida da forma que quisesse, e certamente procuraria por Margarida. Cientes do que estava por trás da motivação do filho, os pais de Eugênio procuraram os padres do seminário e lhes fizeram um pedido imoral: juntos, mentiriam para Eugênio, dizendo que Margarida havia se casado com outro homem e seguira sua vida. Fizeram conforme o combinado e, por tamanha desilusão, Eugênio não apenas desistiu de sair do seminário como decidiu seguir definitivamente a carreira de padre.
      O tempo passou, e Eugênio – já padre – foi visitar a antiga vila onde morava, quando é chamado para socorrer uma moça muito doente. Bondoso e prestativo, imediatamente foi em socorro da moça, sem saber que se tratava de seu grande amor, Margarida. Ela então, em muito sofrimento, lhe conta que depois que Eugênio foi para o seminário, os fazendeiros a expulsaram com sua mãe da fazenda e, agora que sua mãe havia falecido, Margarida vivia em grandes necessidades. Por amor a Eugênio, nunca fora capaz de olhar para outro homem, muito menos de casar-se, e desde então vivia sozinha em sua carência emocional e física.
     Totalmente perplexo com o que ouvira, e vendo a mulher de sua vida em sua frente, Eugênio deixara de se importar com tudo e se entrega ao amor. Ambos passam uma noite de paixão, o que causa grande remorso no rapaz após o ato.
     No dia seguinte, ainda sentindo-se pesaroso por seu pecado, Eugênio se apronta para que pudesse celebrar sua primeira missa. Quando recebe um chamado: em seu papel de padre, deveria encomendar um corpo que havia acabado de chegar à igreja. Ele se dirige ao corpo e não pode acreditar no que está diante de seus olhos: Margarida, seu grande amor, morta pela doença que a estava afligindo. Em choque, o rapaz havia perdido a mulher que sempre desejou, e o favor espiritual como padre pelo pecado que havia cometido. Sentia-se sem rumo, sem norte, como se nada mais em sua vida fizesse sentido – e ele sequer tinha esperança de um dia poder endireitar as coisas e viver feliz. Eugênio enlouquece ainda na igreja, e fica notável para todos que o padre tinha um envolvimento íntimo com a pessoa ali morta. Assim termina o triste romance de Eugênio e Margarida, pois após o falecimento da moça, o rapaz jamais retomou o juízo.

PERSONAGENS

Eugênio: Protagonista da história. “O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda” (p.21). Fora mandado pelos seus pais ao seminário.
Margarida: Afilhada dos pais de Eugênio, não conheceu seu pai, que morreu em batalha. Vive com a mãe Umbelina nas terras de Sr. Antunes. Desde criança demonstra uma paixão por Eugênio.
Sr. Francisco Antunes: Pai de Eugênio, revela-se um homem capaz de mentir e enganar o próprio filho, para defender o status e os interesses familiares.
Sra. Antunes: Mulher boa e carinhosa, era a mãe de Eugênio. Muito religiosa, concordava com as decisões do marido.
Dona Umbelina: Mãe de Margarida, nutria grande carinho por Eugênio, vive uma vida simples, vendendo o que produz para viajantes.
Luciano: Rapaz apaixonado por Margarida e rejeitado por ela. Aparentava ser rico e bem nascido.



Memórias de um Sargento de Milícias
Manuel Antônio de Almeida

        Por ser originariamente um folhetim, publicado semanalmente, o enredo necessitava prender a atenção do leitor, com capítulos curtos e até certo ponto independentes, em geral contendo um episódio completo. A trama, por isso, é complexa, formada de histórias que se sucedem e nem sempre se relacionam por causa e efeito.
Filho de uma pisadela e de um beliscão” (referência à maneira como seus pais flertaram, ao se conhecer no navio que os conduz de Portugal ao Brasil), o pequeno Leonardo é uma criança intratável, que parece prever as dificuldades que irá enfrentar. E não são poucas: abandonado pela mãe, que foge para Portugal com um capitão de navio, é igualmente abandonado pelo pai, mas encontra no padrinho seu protetor. Esse é dono de uma barbearia e tem guardada boa soma em dinheiro.
      Enquanto o pequeno Leonardo apronta as suas diabruras pela vizinhança, seu pai, Leonardo Pataca, se envolve amorosamente com a Cigana, mas essa o abandona logo. Ele, então, recorre à feitiçaria (proibida naquela época) para tentar trazê-la de volta. Porém, no auge da cerimônia o major Vidigal e seus homens invadem a casa do feiticeiro, açoitam os praticantes e levam Leonardo Pataca preso. Ele pede socorro à Comadre, que pede ajuda a um Tenente-Coronel que se considerava em dívida com a família de Pataca, e ele logo é solto.
       Já o Compadre (ou padrinho) que cuidava do menino Leonardo havia aprendido o ofício de barbeiro com o homem que o criara. Foi para a África como médico em um navio negreiro e, durante a volta, o capitão em seu leito de morte lhe confiou um baú de dinheiro para que o entregasse a sua filha. Ele, porém, ficou com o dinheiro. Após isso aparenta ter se tornado um homem de bem e cria o Leonardo como se fosse um filho, sonhando em torna-lo padre. O menino, porém, causa transtornos por qualquer lugar onde passa e, após levar uma enorme bronca do padre da cidade, jura vingança.
      O padre era um homem que aparentava ser santo, mas na realidade era um lascivo e fora ele quem roubara a Cigana de Leonardo Pataca. Como o padre passava boa parte de seu tempo na casa dela, um dia o menino Leonardo resolve armar uma emboscada para desmascará-lo. Ele vai até a casa da Cigana para informar o horário de uma festa, mas ele mente o horário para que o padre chegue atrasado. Quando por fim chegou à igreja, o padre repreende ao menino perguntando-lhe qual era a hora certa do sermão. Leonardo, então, diz que falou o horário correto e que a Cigana estava de prova, pois ouviu tudo. Sem saber o que fazer frente ao choque de todos, ele dispensa o menino.
      Leonardo Pataca, ao saber que havia sido trocado pelo padre, resolve tentar conquistar Cigana novamente. Ela, porém, não dá bola para ele. Para se vingar, ele contrata um amigo para causar uma confusão em uma festa que ela iria promover em sua casa. No momento da bagunça Vidigal, que já havia sido avisado por Pataca, aparece e prende o padre em flagrante, somente de cueca, meia, sapato e gorrinho na cabeça. Com isso, Leonardo Pataca consegue ficar mais um tempo com a Cigana.
     O Compadre passou a frequentar a casa de D. Maria, uma rica mulher com gosto pelo Direito, sempre acompanhado do afilhado Leonardo. Com o tempo o menino foi sossegando, até que chegou a idade dos amores. Luisinha, uma menina descrita como feia e que era filha do recém-falecido irmão de D. Maria, foi morar com a tia. No dia da festa do Espírito Santo foram todos ver a queima de fogos. A menina se divertiu, abraçou Leonardo pelas costas e no final os dois voltaram de mãos dadas. Após isso, porém, Luisinha voltou a ficar tímida.
     Um dia entra em cena José Manuel, homem mais velho que fica interessado em Lusinha por conta da herança que ela havia recebido do pai e que iria receber de D. Maria, já que ela era a única herdeira. O Compadre, percebendo os interesses de José Manuel, se junta à Comadre para tentar espantar o interesseiro. Enquanto isso, Leonardo tenta conquistar Luisinha, mas ele acaba saindo muito sem jeito e acaba espantando ela. Porém, fica claro que Luisinha também gosta de Leonardo. Para tentar afastar José Miguel, a Comadre inventa uma série de mentiras, que logo são descobertas. Então, D. Maria, ao invés de expulsar José, acaba se afastando da Comadre, agora desacreditada.
     Enquanto isso, novamente traído pela Cigana, Leonardo Pataca junta-se com a filha da Comadre e têm um filho juntos. Pouco depois o Comadre morre e Leonardo vai morar junto com o pai. Porém, ele e sua madrasta não conseguem se entender e, após muitas brigas, ele foge de casa. Afastado de todos, Leonardo conhece um grupo que estava fazendo piquenique e reconhece dentre eles um amigo seu de infância.
    Leonardo passa a morar junto com eles na Rua da Vala. Lá vivem duas quarentonas viúvas e seus seis filhos, sendo que uma tinha três rapazes e outra três moças. Vidinha era a mais bonita e era disputada por dois primos. Porém, ela acaba se enamorando com Leonardo e os dois passam o dia namorando dentro de casa, o que desperta ciúmes dos outros rapazes. Esses, por sua vez, vão falar para Vidigal que Leonardo está vivendo como intruso na casa e tirando proveito das mulheres. Num dia, Vidigal aparece e leva Leonardo preso, mas esse consegue fugir.
      A Comadre arruma um emprego para Leonardo na ucharia real, mas ele se envolve com a esposa do patrão e acaba despedido. Vidinha vai até a casa de Toma Largura, ex-patrão de Leonardo, para brigar com ele e com sua esposa. Enquanto isso, Vidigal consegue prender Leonardo. Acontece que Toma Largura ficou encantado com Vidinha e começa a cerca-la de todas as formas. A moça, encarando a ausência de Leonardo como consequência das últimas brigas, resolve ceder à insistência de Toma Largura.
    Obrigado pela polícia, Leonardo começa a servir ao exército. Depois de um tempo, Vidigal o coloca no batalhão de granadeiros para combater os malandros do Rio. Porém, ao contrário do que ele pensava, Leonardo continua aprontando dentro do próprio batalhão de polícia. Na última delas, Vidigal planejava prender um homem que fazia imitações suas para animar festas. Mas Leonardo acaba se divertindo com as graças do imitador e o avisa das intenções de Vidigal. Quando o major descobre a traição de Leonardo, prende o moço sob juramento de algumas chibatadas.
    A Comadre fica sabendo disso e vai pedir ajuda à D. Maria e à Maria Regalada, antiga amante de Vidigal. Elas vão até a casa do major, que as recebe com roupa civil da cintura para baixo e farda da cintura para cima. Não conseguindo resistir aos pedidos das três mulheres, Vidigal perdoa Leonardo e ainda promete promove-lo à sargento do exército.
     Enquanto tudo isso acontecia, Luisinha estava casada com José Manuel, que a tratava mal e só se preocupava com o dinheiro da moça. D. Maria resolve preparar uma ação judicial contra o homem, mas ele acaba morrendo vítima de um ataque apopléctico (parecido com um derrame). Após o enterro de José Manuel, preparam tudo para o casamento de Luisinha, agora uma mulher feita e bonita, com Leonardo, bonito e muito elegante em sua farda de sargento do exército. Algum tempo depois, D. Maria e Leonardo Pataca também morrem e, junto com as outras heranças que já tinham, receberam mais duas.
PERSONAGENS
Leonardo: protagonista que garante unidade à narrativa. O sargento de milícias a que se refere o título da obra é Leonardo, embora o personagem obtenha esse cargo somente nas últimas páginas do livro.
Leonardo Pataca: pai de Leonardo, um meirinho (oficial de Justiça) que fora vendedor de roupas em Lisboa e, durante sua viagem ao Brasil, conhece Maria das Hortaliças, o que resultará no nascimento de Leonardo.
Maria das Hortaliças: mãe de Leonardo, uma saloia (camponesa) muito namoradeira, que abandona o filho para ficar com outro homem.
O Compadre ou O Padrinho: é dono de uma barbearia e toma a guarda de Leonardo após os pais abandonarem a criança. Torna-se um segundo pai para ele.
A Comadre ou A Madrinha:mulher gorda e bonachona, apresentada como ingênua, frequentadora assídua de missas e festas religiosas.
Major Vidigal: homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão. Apesar do aspecto pachorrento, era quem impunha a lei de modo enérgico e centralizado.
Dona Maria: mulher idosa e muito gorda, não era bonita, mas tinha aspecto bem-cuidado. Era rica e devotada aos pobres. Tinha, contudo, o vício das demandas (disputas judiciais).
Luisinha: sobrinha de dona Maria. Seu aspecto, inicialmente sem graça, se transforma gradualmente, até se tornar uma rapariga encantadora.
Vidinha:mulata de 18 a 20 anos, muito bonita, que atrai as atenções de Leonardo.

ANÁLISE DA OBRA



    A maior dificuldade na análise de obra de Manuel Antônio de Almeida é encontrar uma caracterização satisfatória para um romance que destoa tanto do que era produzido na época. O tom de comicidade da obra também não ajuda a localizar seu gênero.
    O critico literário Alfredo Bosi chama as Memórias de "romance picaresco", de "crônica de costumes", e ainda se refere ao "realismo de Manuel Antônio de Almeida". São três caracterizações diferentes que podem ser encontradas no romance de Manuel Antônio de Almeida.
  O romance picaresco vem de uma tradição marginal, classicista e renascentista de romances focados em personagens pícaros. Anti-heróis que ao vento das desventuras tentam tirar vantagem de todas as situações, usando meios antiéticos para tal feito.

    A crônica de costume é o retrato dos costumes de uma sociedade que se aproxima de um tom jornalístico.O realismo é a corrente literária que busca explicar uma sociedade por meio da literatura, investindo os personagens de uma carga psicológica e retratando as suas relações.
   Apesar de encontramos no romance diversos elementos das caracterizações anteriores, não é possível definir Memórias de um Sargento de Milícias usando apenas uma delas. Logo a problemática continua.